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A Casa Verde – Conto

Pessoas começam a desaparecer pela cidade e a única coisa que testemunham é uma ip luz bem forte. Enquanto isso um jovem garoto fica incomodado com uma casa completamente verde.

 

Eu morava em uma rua extremamente movimentada, repleta de pessoas arrogantes e com muito cheiro de dinheiro em todos os bueiros. Ninguém falava comigo, ninguém sequer me olhava diretamente nos olhos. Meus pais diziam que talvez era por causa da minha cor de pele, mas eu agora sei que tinha algo muito maior por trás.
Tinha o costume de pegar minha bicicleta e descer a ladeira da rua todos os dias de manhã. Ia passando por aquelas casas insossas e esnobes enquanto ouvia Beatles no meu mp3. Então chegava na escola, prendia a bicicleta perto do portão e me encaminhava para aquela sala de aula fria e sem graça. Ao contrário do que acontecia na minha rua na escola todos me notavam. Não de um jeito bom, mas era melhor do nada. Para falar a verdade hoje eu preferia ter continuado completamente invisível.
Conheci Brendon na escola. Tinha alguns garotos mais velhos batendo nele e resolvi tentar defendê-lo. Terminamos jogados no chão com ketchup no uniforme e completamente com fome. Vimos algumas meninas no canto rindo da gente e decidimos fazer um pacto. Todos os dias iríamos proteger um ao outro não importa o que acontecesse.
Depois de ter feito essa grande amizade meus dias na escola ficaram melhores. Todos continuavam me chamando de apelidos desconfortáveis mas agora eu tinha alguém para me ajudar quando estava em desvantagem. Ele era um menino franzino. Loiro e cheio de sardas. Era cego de um olho então muitas vezes esbarrava nas pessoas que ficavam do lado direito dos corredores. Morava com os pais no outro lado da cidade, então só nos víamos na escola mesmo. Ele tinha uma irmã mais velha, mas eu realmente não lembro dela, talvez até tivesse trocado algumas palavras ou tapas.
A família dele era perfeita. Pais, irmã, cachorros e uma casa enorme, toda verde. Tinha sido pintada recentemente. Segundo boatos na cidade a casa tinha um passado bem bizarro. Um pai de família surtou e matou esposa e filha. Nunca falaram o motivo disso ter acontecido, mas o cinema dos Estados Unidos me ensinou que provavelmente alguma possessão demoníaca seria a verdadeira responsável. Essas pessoas possuídas fazem coisas inacreditáveis e depois não lembram de nada. Meu pai dizia que era uma doença psicológica mas eu realmente preferia acreditar nos jornais e naquele barbudo mal humorado que ficava na esquina da minha casa.
Nunca ouvi relatos bizarros na família do Brendon, e pelo que eu saiba o pai dele não matou ninguém, apenas pegou as malas e foi embora de casa sem dizer nada para ninguém. O que meu pai falou ser absolutamente normal para um homem da idade deles. De fato aconteceu algo naquela casa depois que ficamos amigos. Uma coisa que até hoje me assusta completamente.
Antes disso tudo teve Jim. Um homem que não falava nosso idioma e se vestia com roupas extravagantes. Dirigia um furgão e eu evitava qualquer contato com ele. Sempre achei que fosse um assassino de crianças. Até o dia que ele sumiu. Os móveis na casa ficaram exatamente do jeito que ele deixou, e pela notícia dos jornais ele não levou nenhuma roupa. Simplesmente sumiu.
Depois dele teve o caso dos Jenkins. Uma família mexicana que morava perto da casa do Brendon. O filho deles sumiu também. E a única coisa relatada foi uma luz bem forte que vinha da rua. Aparentemente ele foi em direção da tal luz e acho que já falei o resto.
Jim desapareceu em março de 2015 e o menino Jenkins em maio. Depois disso a cidade toda ficava em alerta. Qualquer luz mais forte vinda de qualquer lugar era considerada uma ameaça. Então tive que ficar trancado dentro de casa por quase três meses. Sem ir para a escola, sem falar com Brendon e sem assistir televisão. Quando questionei meu pai ele disse que era melhor assim, evitaria um pânico que ele considerava desnecessário.
Enquanto estive no meu cativeiro residencial não houve mais nenhum desaparecimento, só uma mulher que foi assassinada pelo namorado ciumento. Mas a população já nem se importava mais. Um assassinato é apenas mais uma folha caída no meio de todas as outras no pátio. Diferente de desaparecimentos aleatórios que são brilhantes no meio dessas folhas todas. Mas eu conhecia a mulher assassinada. Seu nome era Jiulia. Tinha sido minha professora no ano retrasado e sofria constantes abusos do namorado. Ninguém se intrometia e pelo que ouvi do meu pai quando um casal briga um casal se resolve. Teve apenas um dia que resolvi perguntar se ela estava bem. Tinha vários hematomas no rosto. Ela apenas sorriu e me disse que andara sonolenta e tinha batido o rosto no armário da escola. Mas eu sempre soube que era mentira.
Ninguém se importava com mulheres que nem Jiulia. A polícia mesmo levou uma semana para descobrir que ela estava morta. Afinal toda a atenção estava voltada para os misteriosos desaparecimentos do bairro Concórdia. Amanhã terá outra Jiulia jogada em alguma calçada mas se a luz forte tornar a aparecer terá bem mais brilho que qualquer outro crime cometido.
Levou alguns meses até a última pessoa desaparecer. E foi que nem os outros. Simplesmente sumiu. Não levou nada nem avisou ninguém. Era um homem de 50 anos, robusto e charmoso. Com uma fala bem mansa e diversas ex namoradas. Nenhuma luz forte foi vista por ninguém. Apenas um barulho, algo parecido com um ronco forte de um motor. As pessoas todas saíram para a rua na tentativa de ter algo interessante e aparecer no noticiário. Ninguém se importava com o homem. Esse foi o dia que eu não fui o único invisível ali. Esse foi o dia que meu pai ficou invisível para uma rua inteira que apenas procurava alguns flashes. Foi o dia que meu pai desapareceu sem um bilhete sequer ou dinheiro para comida.

Brendon estava uns dias sem querer falar comigo. Ficou incomodado por eu não ter visto nada acontecer e ele era realmente desesperado por algo fora do normal. Narrei que apenas ouvi um barulho de motor e então ele começou com toda uma teoria de que talvez fossem seres de outros planetas e que o barulho seria da nave deles. Ele não parara de falar um segundo e eu estava me sentindo muito estranho na casa dele. Não aguentava olhar para aquelas paredes todas verdes por dentro e por fora. Só queria encontrar meu pai. Depois de algumas horas voltei para minha casa. Completamente vazia e cheirando a comida velha. Não era tão divertido sem o meu pai.
Durante uns dois dias acabei dormindo muito mal. Tinha pesadelos frequentes com homens pelados enormes com cabeças pontudas e totalmente verdes. Dirigiam um furgão preto que fazia muito barulho e tinha luzes muito fortes. Eles vinham para me dizer que meu pai seria a comida deles e então eu acordava. Dessa vez tinha me urinado e acabei tendo que dormir na cama molhada e fedida nos dias seguintes.
Peguei minha bicicleta decidido a procurar pelo meu pai. Alguma coisa me dizia para olhar para carros barulhentos. Com certeza um cara maluco tinha sequestrado meu pai. Ele não era do tipo correto e já tinha sido preso várias vezes por porte ilegal de drogas. Fumava que nem uma chaminé então talvez tenha sido levado para cumprir alguma punição. Sempre me dizia que eu não podia fazer coisas erradas que os homens divinos me levariam para um tal inferno. Mas eu não queria meu pai no inferno.
Mesmo contra minha vontade pedi ajuda para Brendon. Ele tinha alguns aparelhos legais de investigadores e uma bicicleta com farol e buzina. Sai com a bicicleta dele ao redor do bairro e fui perguntando para todos que via se eles tinham notado alguma coisa diferente antes de cada desaparecimento. Muitos falaram de homens vestidos de preto que andavam de moto roubando crianças e velhos, outros falaram de um grupo de freiras do mal que serviam o diabo e levavam pessoas para servirem de alimento. Apenas uma mulher disse algo que parecia real. Foi a única que disse ter escutado um barulho alto de motor e de repente tudo ficou claro e seu vizinho sumiu. Ela acreditava que era uma caminhonete grande. Mas não conseguiu ver quem era o motorista ou a placa do carro.
Estava cada vez mais difícil não ser notado ali. Todo dia me perguntavam sobre minhas investigações amadoras e eu só respondia que se meu pai não estava comigo era porque estava fracassando. Então me olhavam torto e saíam de perto. Meu pai sempre me disse que falar realmente o que se passava na minha cabeça podia assustar algumas pessoas despreparadas.
Continuei fiel ao que eu chamava de investigação e depois de alguns dias consegui um vídeo de celular que aparentemente mostrava o que tinha acontecido com o menino Jenkins. O carro existia e era uma caminhonete verde. Ela chegou na frente da casa dos Jenkins e então no próximo minuto aparece o menino seguindo aquela luz forte e o barulho. Ele entra na caminhonete, tudo fica ainda mais iluminado e eles somem. Olhei os vídeos seguintes e não havia sinal algum da caminhonete andando. Era como se ela também tivesse desaparecido.
Desde o desaparecimento do meu pai não houve mais nada de estranho. Nenhum barulho ou luz diferente. Nem mesmo os assassinatos de sempre. A população estava bastante assustada. As ruas estavam completamente vazias. Algumas das casas agora tinham câmeras de segurança. Menos a casa de Brendon. Segundo ele segurança afastaria qualquer possibilidade de ataque e ele queria descobrir o que estava acontecendo. Acabei ficando hospedado na casa dele por uns tempos. Não me sentia confortável andando na minha rua repleta de câmeras e seguranças armados.
A casa de Brendon era enorme. Cheia de quartos e banheiros. Eles tinham um porão, que aparentemente ficava trancado. Acho que nunca fora aberto. O quarto que eu ficava era o único com as paredes brancas e uma iluminação mais relaxante. Um leve tom de amarelo que acabava me deixando com sono mais rapidamente. Meus dias ali estavam sendo muito tranquilos. Eles tinham um cachorro chamado Buffy. Em homenagem a série. Era um pastor alemão bem grande e bastante assustador. Rosnava para mim o tempo inteiro e quase me mordeu uma noite. Era bom estar protegido pela primeira vez desde o desaparecimento do meu pai. Dormi sem ter nenhum pesadelo e estava indo muito bem na escola.
Só era ruim quando chegava no domingo. Eles eram religiosos e acordavam muito cedo para ir para o culto. Menos Brendon, ele ficava jogando videogame para não me deixar sozinho em casa. Em um desses domingos ele me falou que a família dele era meio diferente das outras. Falou de um grupo de mulheres que matavam homens pois queriam um mundo mais feminino. Uma delas era uma tia dele que acabou sendo morta quando tentou matar um açougueiro. E então a conversa foi ficando cada vez mais estranha. E estava me assustando pra valer. Pedi licença para ele, inventei uma desculpa qualquer e fui para o pátio com o Buffy.
Depois de duas horas ouvi um barulho enorme de motor. Alguém ia desaparecer. Fui correndo para a calçada e então vi uma caminhonete verde dobrando a rua. Vinha na minha direção. Não consegui me mover apenas fiquei olhando aquele carro se aproximando. O farol estava com um brilho muito forte. Não conseguia ver quem era o motorista. Devo ter ficado ali por uns bons minutos e então o carro parou na minha frente. Ainda com o farol ligado vi o motorista sair. Ele ficou parado do lado do carro me olhando.

– John?

Não entendi como aquele homem poderia saber meu nome. Desde que nos mudamos eu usava outro nome. Brendon me conhecia por Jack. Com certeza esse homem me conhecia de antes da mudança. Mas não consegui falar nada, só fiquei observando.
– John?

O homem veio lentamente na minha direção. Me sentia preso dentro do meu próprio corpo. Só sentia meus olhos se movendo. Ele se aproximou e colocou o braço em cima do meu ombro.

– John? Por que você fugiu John?

Tentei chamar Brendon mas a voz não saía. Aquele homem estava me assustando e eu não conseguia me mexer. Fiquei tentando enganar meu cérebro e depois de muito tempo consegui mexer meu dedo da mão.
– John, escuta, está tudo bem agora. Venha comigo.

Meus dedos estavam começando a se mexer. Cada vez mais rapidamente. Eu estava de novo no controle do meu corpo. Quando o homem veio novamente na minha direção eu consegui me mexer. Bati nele e fui para perto do carro.
Do carro pude ver que a rua estava cheia de pessoas. Todo mundo ia saindo das suas casas e começavam a ficar aterrorizadas com o que viam. Eu tinha conseguido me salvar. Então Brendon veio correndo na minha direção.

– John o que diabos você fez? Larga isso!

Aquele com certeza não era o Brendon verdadeiro. Aquilo não era o meu amigo. Estiquei meu braço ameaçando dar um soco caso ele se aproximasse.

– John, sou eu cara. Larga isso.
Tornei a ameaçar. Ele ficou parado, centímetros de mim. Ouvi um barulho de sirene vindo da esquina e fui ver o que tinha acontecido. E então tudo ficou escuro.
– John? Querido? Está tudo bem agora. Você está a salvo. Não vai acontecer mais nada de ruim.

Era a minha mãe. Tinha cordas ao redor dos meus braços e dos meus pés. Estava em um quarto todo verde. Uma luz forte que vinha do teto me cegava. Perguntei o que tinha acontecido. Perguntei como ela estava ali. Onde estava meu pai.

– John, seu pai está bem. Está em casa, fazendo almoço para você. O médico renovou as receitas. Agora vai ficar tudo bem.
Brendon vinha entrando no quarto com uma camiseta dos Rolling Stones e um livro. Abraçou minha mãe, pegou uma cadeira e sentou do meu lado.
– Cara, o que aconteceu? Cara, tu me assustou legal.

Uma enfermeira entrou no quarto com um copinho cheio de comprimidos. Me deu uma água e disse para tomar os remédios que tudo ia voltar ao normal. Obedeci e acabei adormecendo.
Quando acordei estava na minha casa. Meu pai e minha mãe estava assistindo televisão no sofá do lado da minha cama. Brendon estava lendo um livro do Robert Bloch do meu lado e comendo um pacote de batata frita.

– Veja só quem acordou! Como está se sentindo filho?

Não pude negar a felicidade de rever meu pai. Parecia mais jovem e saudável. Tomei um copo de leite com feijão e arroz. Então Brendon veio me falar que tinha algo muito importante para me mostrar no celular dele. Meus pais o olharam torto e ele justificou dizendo que era melhor me mostrar agora que depois.
Ele então sentou do meu lado. E colocou um vídeo de três horas de duração. Comecei a assistir.

– Isso não faz sentido. O que é isso? Que vídeo é esse?
– Cara, isso foi o que aconteceu, sabe, antes de tu vir parar aqui. Olha direito. Tem todas as respostas aí.

Fiquei assistindo aquele vídeo. Onde o protagonista daquele filme estranho era eu mesmo. O vídeo mostrava eu andando de bicicleta em um pátio enorme. Falando com alguém que não aparecia no vídeo. E atacando um policial com uma pedra.

– O que é isso?

Meu pai então me explicou que minha receita médica estava vencida e eu estava tomando remédios errados. Esses remédios me faziam ver coisas e passar por situações que só existiam na minha cabeça. Eu falei do desaparecimento dele e ele me falou que isso nunca aconteceu. Disse também que comecei a tomar os remédios após minha avó falecer, que eles me ajudavam a ficar consciente mais vezes. Disse que Jack nunca existiu de verdade e que a mudança também não era real. Aparentemente eu fiquei internado em um hospital por quase um ano. Mas que agora estava tudo bem.
Novamente acreditei no meu pai. Ouvi tudo e entendi de verdade. Entendi a verdade.
Fiquei ali deitado naquela cama por mais alguns dias. E então me mandaram de volta para o hospital. Um prédio enorme, todo verde e repleto de lâmpadas com luzes bem fortes. Me colocaram em um quarto onde só tinha um livro e algumas fotos. O livro era um do Robert Bloch. Tinha uma dedicatória do Brendon.

” E aí cara?
Então.
Sou péssimo com dedicatórias sabe.
Mas olha, lê esse livro cara. É muito bom. É um livro sobre um rapaz, olha é bem legal. ”

Olhei para as fotos. Eram todas dos meus pais comigo. E uma do Brendon e eu quando pequenos em um parque com terra. Esbocei um sorriso de leve. Eu ia ficar naquele lugar por um bom tempo. Peguei o livro para ler. O livro favorito do meu melhor amigo. Com uma dedicatória. Então comecei a ler calmamente. Página por página. Iria ter tempo o suficiente ali.
” Capítulo um
Norman Bates ouviu o som e estremeceu.
Parecia que alguém estava batendo na vidraça…

Sistema Global (Poemas Pelo Google Tradutor)

O que aconteceria se pegássemos poemas de autores consagrados e os traduzissem várias e várias vezes usando apenas o google tradutor?

Uma youtuber internacional fez uma coisa parecida porém usando músicas. E é incrível a mudança que se tem no sentido do texto (no caso da letra da música). O nome dela é Malinda Kathleen Reese (o canal dela ainda não tem legendas em pt-br, mas já existem versões de diversas músicas).

Eu decidi fazer essa brincadeira também, porém, com poemas e poesias de autores consagrados. E para começar eu escolhi o poema A Máquina do Mundo do Carlos Drummond de Andrade.

ORIGINAL

(Carlos Drummond de Andrade)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

VERSÃO DO GOOGLE TRADUTOR (EM VÁRIOS IDIOMAS DIFERENTES)

Sistema Global
(Carlos Drummond de Andrade)
E porque havia pouco para mim
até pedras
e o som chora à tarde

combinado com o som dos meus sapatos
É uma risada e uma seca; e os pássaros voam
em livros aéreos e negros

Cuidadoso quando escolhido
na escuridão profunda vem das montanhas
minha honra,

O carro foi aberto no mundo
Para aqueles que quebraram eles fugiram
e ele acha que ele não é estúpido.

Ele abriu com grande,
sem produzir um som prejudicial
mais ou mais pacientes

dos estudantes submetidos a uma inspeção
irritação e ansiedade velhas
com uma pequena consciência

Está em casa em todos os lugares
deste tipo
antes do mistério, no abismo.

Ele abre com clareza e urgência
quantos direitos intelectuais e intelectuais são
Os usuários estão perdidos

e você não voltará,
Se não somos algo, sempre dizemos
nenhuma mudança de texto escuro

ajudar todos no grupo,
Perguntas sobre benefícios não realizados
a aparência das coisas.

Quem ficou curioso a respeito do trabalho da Malinda Kathleen Reese só conferir o vídeo abaixo:

Culto Ao Rei – Poesia

O ar gelado lhe toca a face
Suaves dedos de um anjo morto
Doce assopro, o aroma verde
Um olhar fixo em cima do corpo

Mas olhe para o céu, veja-o brilhar
Uma estrela negra agora será
O homem que vendeu o mundo
Sem capa e ainda um heroi
Um rebelde no espaço sua vida constrói

Mortais choram sangue no dia próximo
Tempestades de espinho os cegam agora
Costas eretas e braços erguidos ao máximo
Em uma cena semelhante ao culto de Pandora

Veja-os agora libertos do sofrimento sem fim
Usando a dor como inspiração para belas historias
Uma ressurreição do rei eles pedem em coro
Gritam o nome de Lázaro com euforia
Não conseguem acreditar que o rei agora está morto.

Mil Espinhos na Face – Poesia

A criança valente. Contente segura a dor.
Mil espinhos na face. No corpo. Na mente.
Seu sangue correndo. Vermelho vivo. Ácida cor.
O carrasco em pé. A flor em suas mãos. Rosa.

Machuca o quanto pode o que não se vê
O que vê chora o que não pode até morrer
Isso! Não importa qual olho seja. A agulha está lá.
Vozes e gritos ecoam aqui. Veja a criança sangrando.

Ouça seus gritos de rancor. A desesperança
A pele queimada e cortada refresca sua alma
Os vícios, os modos repetidos lhe matam por dentro
Impuros eles são mas sem nada com a razão

Maduros estão ou não ou são talvez em vão
Também erram. Pois não. Perfeitos estão ou pensam que são
Esquerda, direita. Não chore, não grite
Abaixe a cabeça. Mil espinhos na face. Na mente.

Não olhe para trás. Não segure a mão. Aguente
Não tente. Apenas sente. Segue em frente.
A criança valente. Contente. Morreu com a dor
Cantou para os pássaros mas não sentiu o amor.

Vamos Brincar de Forca? – Conto

Há mais ou menos duzentos anos atrás, ou melhor, no dia primeiro do primeiro mês do ano de 1811, uma mulher é encontrada morta na banheira de sua casa. Sem braços, sem pernas e com a cabeça por um fio. Seu nome era Carolinne Piedievara, vivia na linha da pobreza. Sem marido, filhos ou parentes próximos. E para o cachorro deixou poucas moedas e comida.

DUZENTOS ANOS ATRÁS…

 Naquela terça-feira Carolinne saíra mais cedo para caçar os ratos selvagens, seu único alimento. Morava numa cabana velha e fria, no meio de uma grande mata fechada. Era o único lugar da cidade que não existia no mapa.

 Faltava apenas um rato quando senhorita Piedievara avistou um vulto entra as árvores. Talvez um homem. Ela então se aproximou e nada viu. Juntou os ratos mortos e voltou para a cabana. Acendeu a lareira e colocou seu alimento para cozinhar.

 Um vento forte fez com que a lareira se apagasse e a cabana escurecesse. Carolinne, que adormecera por um breve período de tempo, acordou de súbito.    Estava amordaçada e amarrada numa cadeira. Um vulto preto á sua frente batia palmas animadamente. Foi se aproximando devagar. Os sapatos pretos batiam no chão cada vez mais fortes. Carolinne apagou.

 Duas horas depois acordou numa cama, com as pernas e braços amarrados. Semelhante ao homem vitruviano.

 Na frente da cama havia uma parede branca com tracejados retos. Sete na parte de cima e cinco na parte de baixo. O vulto então apareceu no vão da porta, permitindo que a luz invadisse o quarto onde Carolinne estava. Era impossível identificar o tal vulto.

 A senhorita Piedievara ainda amordaçada e agora vendada escuta o vulto proferir as seguintes palavras: “Vamos brincar de Forca?”

A Parede – Conto

Clarabelle estava mais uma vez escrevendo seus contos de mistério. Afinal era sexta feira 13, de um ano 13. Tinha passado a noite inteira acordada imaginando uma história perfeita com um final igualmente perfeito.

Não tinha amigos, muito menos parentes, mas sim, uma imaginação fértil para tudo em sua vida. E como de costume, resolvera escrever mais uma ficção de terror sobre monstros e fantasmas.

Já escrevia a primeira linha quando ouviu um estrondo forte na parede. Continuou a escrever e novamente ouviu o forte estrondo. Levantou-se lentamente e sem fazer um ruído sequer foi andando em direção ao som. Mas dessa vez o estrondo foi mais forte. Parecia acompanhá-la onde quer que fosse. Foi se aproximando da parede quando tudo escureceu. Tinha acabado a luz. Sem vela ou lanterna seus passos foram ficando mais lentos. Sua respiração mais pesada. Estava nervosa. Com medo. Os ruídos na parede continuavam cada vez piores. Mais altos.

Ouviu-se gritos de dentro da parede. Gritos de sofrimento. Gritos de ódio. Clarabelle começou a tatear tudo em sua frente. Seus dedos sentiam marcas de rachaduras que vinham do meio da parede e seguiam até onde estavam seus pés. Cada passo que ela dava as rachaduras aumentavam. E aumentavam cada vez mais.

Clarabelle rapidamente desapareceu. Em seu lugar apenas gritos. Seus gritos.

Alameda 38 – Conto

Parte 1

Isabela acordou assustada após um terrível pesadelo que tivera. Dirigiu-se a cozinha para preparar o café. Pão, ovos e leite com morango. Na porta da sala estava pendurado o jornal do dia. Chovia muito naquela manhã. Estava frio, embora ainda fosse outono.

Trabalhava  fazendo pinturas como uma forma de fugir do estresse. Rostos felizes ou apenas duas bolinhas coloridas na tinta à óleo. Estava morando numa casa velha de madeira, e pretendia não sair de lá. Era uma promessa dela.

A cidade era pequena, não muito populosa, e o clima era extremamente bipolar. Ora muito calor, ora muito frio. Não havia jovens morando lá, já que era difícil arrumar empregos ou ao menos estudar em uma universidade. De noite era silêncio total, ouvia-se apenas estalos de madeira, latidos de cães e os ventos, que eram muito fortes por sinal.

Não havia muitos visitantes. Era como se fosse uma cidade fantasma. Mas havia uma casa em especial com muitos ruídos e muita movimentação, só que não eram pessoas vivas. Na verdade ninguém os via, ou sentia. Essa casa localizava-se na Alameda 38.

Isabela morava na Alameda 38. Morava naquela casa. Ela ouvia os gemidos, as gritarias. Ela via os vários rostos desfigurados, as brancas sangrentas. Sentia muito medo. E quando estes espíritos começavam a se manifestar, Isabela fechava fortemente os olhos na esperança de quando abri-los novamente tudo aquilo tivesse acabado. Mas nunca acabava, e a cada dia estava se tornando mais assombroso.

Parte 2

O dia 20 de maio estava chegando. E quando o dia prometido chegar provavelmente ninguém sobreviva a tempo de registrar alguma coisa como prova daquele terrível acontecimento.

A casa era muito antiga. Toda em madeira com o teto de telhas frágeis. O terreno era enorme, cheio de árvores, e nenhuma iluminação. Ela tinha ficado responsável pela casa desde a morte da mãe de sua melhor amiga. De alguma forma se sentia culpada por isso e achava que cada assombração era merecida.

 Quando chegava o verão o sol parecia se desviar daquela casa que ficava extremamente fria. Enquanto toda a cidade chegava aos 32ºc aquela casa não passava de 27ºc. Sua amiga uma vez lhe disse que isso acontecia por causa dos espíritos que habitavam a casa.

– Você precisa sair dessa casa Isa!

Mas Isabela não queria sair daquela casa. Sentia que precisava ficar ali.

Então chegou finalmente dia 20 de maio.  O Dia da Morte. Nessa data todos os moradores eram proibidos de saírem de suas casas depois das 20h. Motivo? Bom, acreditavam que os demônios e os fantasmas saiam de seus túmulos e devoravam a primeira pessoa que estivesse na rua naquele horário.

 Já eram quase 20h e Isabela estava espiando a rua pelas janelas da casa. Ela sabia que não podia fazer isso, afinal se A Morte a visse ela estaria encrencada. Da pior maneira possível. Foi então que ela avistou um menino, provavelmente seu vizinho. Ele vestia um terno laranja bem chamativo e um chapéu de veludo roxo.

– Garoto! Vá para casa! – Gritou Isabela

O menino não deu a mínima para ela e começou a assobiar. Ajoelhou-se na calçada e catou algumas flores verdes fazendo um pequeno buque. Levantou e começou a caminhar em direção a casa de Isabela.

Enquanto o menino andava Isabela viu um homem atrás dele. Com uma longa capa preta e uma maleta. Não conseguia ver o rosto dele. Quando a criança se aproximou da porta o tal homem abriu a maleta e tirou uma faca e começou a apontar para as costas da criança. Isabela então foi correndo abrir a porta. Mas chegando lá, não havia ninguém. Apenas um buque de flores mortas pisoteadas.

Parte 3

Desesperada Isabela rapidamente trancou a porta. E foi para o andar de cima. Pegou uma mala e começou a por suas roupas lá.

– Eu preciso ir embora agora! – disse para si mesma.

Desceu correndo até a porta da sala. Quando chegou lá a porta estava aberta. Completamente escancarada.

– Eu lembro bem de ter trancado – pensou

Começou a andar vagarosamente olhando para todos os lados da casa. Chegou na porta e a fechou. Dando duas voltas na chave.

– Isso não está acontecendo – disse ela enquanto apoiava suas costas na porta.

Respirou aliviada e já se encaminhava para pegar sua mala e ir embora quando viu na parede da sala os dizeres: Isabela você precisa sair dessa casa urgente! 

– Não, não e não! Isso não é real!

Alguém começou a bater na porta. Isabela olhou no olho mágico e tinha duas garotinhas vestidas iguais e costas para ela.

– Vocês não deveriam estar em casa? – gritou Isabela de dentro da casa

As crianças então viraram para ela. E de repente um grito. As meninas não tinham rostos. Não havia nariz, olhos, bocas, nada.

 – Faltam apenas mais 3 horas – pensou Isabela

Parte 4

O telefone começou a tocar no andar de cima. Um barulho estridente. Isabela subiu as escadas correndo e foi atender.

– Alô?

E ninguém falava do outro lado, apenas um som de respiração ofegante.

– Eu sei que tem alguém aí, quem está falando?

Isabela então sentiu alguém tocar em seu ombro, sem virar para trás apenas com o canto do olho ela viu uma mulher velha, com metade do rosto queimado que apontava para a janela. Ela então olhou para a janela e viu o homem da capa preta que tinha visto anteriormente. Ele parecia estar flutuando.

Enquanto encarava a janela, ela pegou o telefone novamente.

– Quem está falando?

E na janela estava o homem com um telefone na mão. O pescoço parecia quebrado. Ela ficou olhando aquela cena, de repente algo puxou o homem para trás, Isabela foi para janela mas não havia mais sinal do homem. Ele simplesmente desaparecera no ar.

Voltou ao telefone e agora podia ouvir uma voz bem baixa, parecia uma criança: Você precisa sair dessa casa urgente! 

Ela então pegou as malas e saiu pela porta dos fundos. Olhando para todos os lados para saber se alguém a seguia. Passou o resto da noite procurando um hotel. Mas as portas de todos os lugares estavam fechadas. E ninguém iria abri-las até o dia seguinte.

Isabela então sentou na calçada em frente ao shopping. Que naquela hora parecia um prédio abandonado. Sem luzes ligadas, sem pessoas e várias tábuas presas a janelas e portas. E ali adormeceu.

Parte 5 

Um Mês Depois

 – Ela vai ficar aqui internada mais alguns dias para observação e se não houver mais nenhum problema poderá ser liberada e ir pra casa tranquilamente.

– Obrigada doutor.

Mariana então se juntou ao restante do grupo que estava na sala de espera.

– Pessoal, a Isa tá bem. Vai ficar mais alguns dias sendo observada depois pode ir pra casa.

– Preferia que ela tivesse morrido. Garota insuportável.

– Para Carol! O que fizeram com ela foi errado. Podia ter sido com qualquer um de nós. Pelo menos aqui ela está em segurança. E a gente devia ir pra casa. São quase 3h da manhã. Minha mãe nem sonha que estou num hospital a essas horas.

– A Mari tá certa. Mas pelo menos um de nós devia ficar aqui para caso de emergência. O que acham?

– Eu fico!

– Carol você odeia a Isa, tem certeza que iria prestar atenção se alguma coisa voltasse a acontecer?

– Vão antes que eu mude de ideia. Vou ficar com o celular ligado. Trouxe o carregador e vi que no quarto dela tem duas tomadas. Se alguém quiser me deixar uma grana pra comprar comida de manhã eu não me incomodaria de olhar para aquela falsa.

– Ok, a gente vai e a Cinthia vai te ligar assim que a gente chegar em casa pra perguntar se está tudo bem. E eu acho bom você atender o telefone. Tome aqui meu cartão. Vou anotar no seu celular a senha e qualquer coisa nos chame.

Mariana e os outros voltaram para casa numa viagem de duas horas. E enquanto isso Carol lia Morro dos Ventos Uivantes. O hospital estava completamente vazio e muito gelado. Uma das luzes piscava direto ameaçando queimar. Um barulho então veio do quarto de Isabela.

Não havia sinal de médicos ou qualquer ser vivo naquele lugar. Como se todos tivessem desaparecido. Carol então resolveu ir verificar. Ao chegar no quarto se deparou com Isabela em pé. Com os cabelos jogados na cara e as mãos todas ensanguentadas.

– Que merda é essa?

Isabela não se mexia. Parecia ofegante.

– Isabela tu tá bem?

Carol tocou nos braços dela e percebeu que estavam completamente gelados. Ela então correu para a porta do quarto e começou a chamar pelos médicos. Ninguém vinha. Enquanto isso Isabela continuava ali imóvel.

– Onde é que tá todo mundo?

Pegou o celular e resolveu ligar para Mariana.

– Claro que tinha que está sem sinal. Depois vão dizer que não liguei. Maldição! Escuta Isabela, eu vou atrás de algum telefone por aqui. Tenta voltar pra cama, vou deixar a porta trancada.

Enquanto falava com Isabela reparou que a imagem refletida na janela era diferente. Foi se aproximando devagar e então reparou que tinha um homem ali. Ele vestia uma capa preta e estava parado igual Isabela.

Quando estava quase saindo do quarto Carol reparou que Isabela estava começando a se mexer. E o homem da capa preta fazia exatamente os mesmos movimentos.

– Que merda tá acontecendo aqui? Isabela de onde você tirou essa faca? ENFERMEIRAS!!!

Mas nada adiantava. A porta do quarto fechou-se bruscamente atrás de Carol. Que com o susto foi olhar quem tinha fechado a porta. Ao virar para frente novamente viu Isabela apontando a faca contra ela e o reflexo na janela apenas sorria.

O celular começou a tocar. Era Mariana querendo avisar que já tinham chegado.

– Ela não tá atendendo gente.

Enquanto isso do lado de fora do quarto uma poça de sangue começava a escorrer pelo corredor.

Parte 6

Mariana achou estranho Carol não ter atendido as ligações e resolveu voltar para o hospital e ver o que tinha acontecido. Após longas duas horas dentro de um carro ela já não aguentava mais ver árvores e linhas retas. E finalmente conseguia ver o hospital.

– Finalmente!

Desceu do carro segurando o celular para iluminar o lugar. Estava tudo completamente escuro. As janelas da frente estavam quebradas. Por conta da falta de energia a porta da frente não abria. Mariana teve que entrar pela janela. Acabou machucando a mão por causa disso. Após se equilibrar totalmente do lado de dentro do hospital pegou o celular e apontou para o chão com o intuito de iluminar o caminho. E foi então que ela viu uma mancha de sangue.

– O que aconteceu aqui?

Foi correndo para o quarto onde estava Isabela. Viu uma enorme poça de sangue na porta e deu um grito. Começou então a olhar para todos os lados assustada. Mas não tinha nada ali, apenas alguns gemidos que vinham do lado de dentro do quarto.

– Isabela? Carol? são vocês?

Ela então se aproximou da porta querendo ouvir melhor. E uma voz quase falhando gemia:

– So…co…rroo

– Carol é você? Vou tentar abrir a porta! Afaste-se da porta!

E então começou a se jogar na porta. Pela mesma já ser velha e enferrujada abriu-se com extrema facilidade. Mariana então olhou por tudo. Havia sangue por toda a parede e piso. E no chão estava Carol. Pressionando o pescoço com as duas mãos tentando estancar o sangue. Mas era praticamente impossível. Era um corte de orelha a orelha.

– Minha nossa Carol! Quem fez isso com você? Cadê a Isa?

Carol então sem poder falar apenas apontou para um texto na janela do quarto. “20 de maio”. Escrito com sangue. Após isso ficou completamente imóvel. Mariana sem ter como encarar aqueles olhos arregalados e sem vida levantou e saiu correndo porta fora. E se deparou com uma menina na porta.

Ela estava de costas e tinha um enorme cabelo negro. Mariana foi se aproximando lentamente.

– Isabela?

Parou de repente quando a tal menina começou a se virar. Mariana então soltou um grito e começou a fugir. A tal menina não tinha olhos, nariz e boca. Em seu lugar tinha um buraco que parecia não ter fim.

– O que está acontecendo aqui? – gritou uma menina nas sombras.

– Quem é você? – perguntou Mariana.

– Sou eu, Isa!

Parte 7  – O Final

Mariana deu um salto para trás. Era nítida a expressão de medo em seu rosto.

– O que houve com seu rosto Isa?

A menina estava praticamente em carne viva.  Na sua mão uma faca que não parava de pingar gotas de sangue vivo.

– Não aconteceu nada. Estou mais bonita que de costume.

Mariana percebendo que algo estava errado começou a tatear um balcão que estava na suas costas em busca de alguma coisa pontuda.

– Você não é a Isa. A verdadeira Isa jamais teria ferido alguém.

– Ela era irritante demais e muito egoísta. E loira.

Uma luz que vinha da rua iluminou o lugar onde as duas estavam. Mariana desesperada começou a correr em direção àquela luz.

– Vão embora! Isa enlouqueceu! Fujam!

Os amigos de Mariana haviam voltado de carro para o hospital. Afinal não tinham notícias da mesma faziam 5 horas. Jorge então desceu no carro.

– Graças a Deus Mariana! Nossa você está pálida..

– Jorge leve todos embora daqui! Alguma coisa possuiu a Isa. Ela matou a Carol e está vindo atrás de mim. Fuja Jor…

E então algo a atravessou no peito.

– Merda! Merda!!!

Jorge começou a correr desesperado em direção do carro. Isa pegava de volta a estaca de madeira que cravara em Mariana.

– Pessoal abre a porta! A chave não tá funcionando!

Isa se aproximava lentamente. Então abriu um sorriso.

– Jorge, pare. Será em vão.

Ele então parou e olhou para ela. Que já apontava a estaca ensanguentada na sua direção.

– Isa…Por que está fazendo isso? Somos seus amigos!

– Vocês me abandonaram naquele dia! Você lembra? Dia 20 de maio. Eu fiquei abandonada numa casa sendo atormentada por coisas que até hoje não consigo explicar. Olhe para o retrovisor do carro. Olhe!

Jorge então olhou. Um homem vestindo preto olhava fixamente para ele. Sentiu algo o ferir nas costas. O tal homem lhe cravava uma estaca de madeira. Jorge virou e então viu Isabela.

– O que é você? – disse enquanto ainda insistia em fugir

– Quando vocês abandonaram Isabela naquele dia eu apareci para ela. De diversas formas. No começo queria apenas assustá-la, menina tão bobinha e impressionável. Mas então vi que ela tinha algo de especial. Ela não tinha sentido raiva de vocês em nenhum momento. Pelo contrário, se sentia culpada pela morte da mãe de sua amiga. Foi morar numa casa completamente estranha apenas para deixar vocês confortáveis. Ela sentiu muito medo de mim. Eu pedia para deixar aquela casa e ser feliz mas quanto mais fazia isso mais assustada ela ficava. Então depois de algumas horas encontrei-a na rua. Dormindo na calçada. Ninguém ofereceu um cobertor sequer para ela. Me aproximei lentamente e sentei ao seu lado. Ela acordou e tentou fugir. Tive que impedi-la.

– O que você fez com ela?

– Naquele dia todos estavam escondidos nas suas casas com medo da Morte aparecer e levá-las para o inferno. Essas pessoas estavam apenas com medo de mim. Eu gostava disso. Mas Isabela não. Com ela não tive a intenção de fazer maldade alguma. Percebi depois de um certo tempo conversando com ela que não adiantaria nada. Ela continuaria com medo de mim e iria ter muitos pesadelos todas as vezes que eu aparecesse. Contra a minha vontade levei a alma dela para um lugar mais seguro e resolvi morar em seu corpo e fazer aqueles que a abandonaram pagar.

– Você…ma..tou…a…Isa…

– Eu fiz o que precisava ser feito. Agora só falta você. E então a alma e o corpo dela poderão descansar em paz.

– Vo…cê…a…ma…tou!

– Me desculpe Jorge. Mas para seu azar é assim que sua história deve terminar.

Após dizer isso Isabela pegou uma faca em seu bolso e deu 50 facadas em Jorge. E então tudo ficou negro e gelado.

Uma sombra preta saía de dentro de Isabela enquanto a mesma caía vagarosamente no chão. Completamente sem vida. Sua pele fora dilacerada e não tinha mais aquele ar bondoso de outrora. A sombra então andou até a rua. E desapareceu entre a escuridão da estrada.

Passageiros Inusitados – Conto

Parte 1

Emma acordou ansiosa. Era o aniversário de seu meio – irmão Josh. E fazia 2 anos que ela não o via. Foi correndo na caixa de presentes e lembrou-se de não ter comprado um. Imediatamente vestiu a primeira roupa que encontrou e encaminhou-se em direção ao carro. Um velho monza prateado. As rodas mal giravam, porém Emma precisava de agilidade no carro para poder comprar o presente para o irmão e ainda chegar a tempo para a festa.

Após ter comprado o presente, uma simples camiseta com a foto do jogador favorito de Josh, resolveu parar no sinal vermelho, o único da cidade aliás. Aproveitou para sintonizar o rádio, então ouviu uma batida forte, como se alguém chutasse a lataria do carro. Levantou a cabeça e olhou em direção do porta malas, porém não tinha nada nem ninguém. Voltou a sintonizar o rádio e acabou ouvindo o tal barulho novamente, só que agora bem mais forte.

Resolveu sair do carro e ver o que estava acontecendo, e apenas percebeu que estava numa rua completamente deserta. As lojas, poucas que tinham, já estavam fechadas, e por causa do frio intenso poucos se arriscavam a sair naquele horário.

Começou a entrar em desespero, entrou correndo no carro, colocou a chave na ignição, girou-a, mas o carro não ligou. Tentou novamente. E nem sinal do motor funcionar. Saiu novamente do carro. Abriu o capô para checar o motor. Mas não havia mais motor algum ali. Alguém o tinha levado.

Parte 2

Foi atrás de alguma mecânica que estivesse funcionando naquela hora. E então viu um senhor sentado na calçada chorando. Resolveu ir verificar se ele não precisava de alguma coisa.

– O senhor está bem?

Mas ele não parava de chorar. Emma sentou ao seu lado e começou a conversar.

– O senhor não me conhece mas quero saber o que aconteceu se não quiser falar tudo bem, enquanto isso vou te contar o que aconteceu comigo hoje. Pra começar eu deveria comprar o presente de aniversário pro Josh mas alguma coisa aconteceu com meu carro. Agora o senhor poderia se sentir a vontade para me dizer o que aconteceu com você.

– Ai minha jovem. Hoje faz um ano que meu netinho morreu. Morte horrível inclusive. Foi nessa rua aqui mesmo. Ele estava ali brincando de pega-pega com outras cinco crianças, e então veio esse motorista maluco e passou por cima de todos.

– Minha nossa! Meus pêsames senhor!

– Sem problemas jovem. As vezes eu venho aqui e fico olhando para a rua na esperança de vê-lo novamente mas nenhuma aparição sequer em 1 ano. Alguns já me disseram que se eu esperar até a tarde, que foi o momento do acidente, posso ver todas as crianças brincando como se nada tivesse acontecido. Bem ali minha jovem, onde está seu carro.

Emma então perguntou se o senhor não a ajudaria a arrumar o carro para poder ir embora e deixá-lo com seu netinho durante a tarde.

– Jovem, meu netinho está do outro lado agora. Seu carro não iria atrapalhar em nada. Venha, sente ao meu lado. Vamos esperar juntos.

O problema era que Emma tinha pânico de assombrações e só com a ideia de que alguma coisa desse tipo poderia aparecer para ela já dava um enorme arrepio. Mas resolveu ficar ao lado do velhinho.

– Bom minha jovem, se ver alguma coisa me avise. Vai começar agora.

Ela então olhou para rua, desejando que nada além de carros aparecessem. Foi então que ela viu. Cinco crianças sentadas na calçada conversando.

– Senhor, olhe! Na frente do meu carro!

Não sentiu nenhum medo, pelo contrário, viu que aquelas crianças não estavam entendendo o motivo de estar ali. Elas então se levantaram pegaram uma bola e foram para a rua brincar.

– Saiam da rua crianças! – Emma gritou no susto.

– Jovem, elas não podem te ouvir, elas já morreram. Veja se um menino franzino e ruivo está ali também. Me diga o que ele está fazendo.

     Emma foi fazer o que o velhinho havia pedido, foi então que avistou um ônibus escolar vindo em direção as crianças. Ela começou a gritar e sinalizar para o tal ônibus. Mas o mesmo estava completamente vazio. Em seguida um barulho. E todas as cinco crianças estavam jogadas no chão incluindo a menino franzino e ruivo.

– Sinto muito senhor, não consegui evitar…

– Jovem, eu não os vejo sabe, mas os ouço e sinto suas presenças. Menos a de meu netinho.

A menina foi em direção ao acidente. A frente do ônibus tinha ficado completamente amassada. E manchas de sangue se espalharam pela rua. Ela foi andando e olhando para cada criança. Tinha uma menina loira, dois meninos gêmeos, um ruivo e uma delas ela não conseguiu identificar.

– Senhor, uma das crianças eu não consegui identificar. Quem é?

O velhinho então tirou um jornal velho do bolso da calça. Estava praticamente se desmanchando. Nesse jornal tinha uma notícia de 07 de agosto de 2014.

“Acidente com ônibus escolar deixa 5 vítimas fatais e outras 12 feridas. Motorista estava alcoolizado. Veja mais na página 7”.

Emma então foi para a outra página ler detalhes da notícia.

“Cinco crianças morreram essa tarde após serem vítimas de um ônibus escolar desgovernado. Os passageiros do ônibus passam bem, tiveram apenas alguns arranhões. O mesmo não aconteceu para Bruna Gentil, Carlos e João Magno, Maurício Tomás e Josh Vinegan”.

– Entendeu agora jovem? – Disse o velhinho que agora parecia assustador.

– O que é isso? – Perguntou ela.

– Desde a morte das crianças coisas estranhas começaram a acontecer. Esse jornal em sua mão foi parar em cima da minha cama um pouco depois da hora do acidente. E eu nem sequer assinava jornais além de morar sozinho. Fui para um hospital depois de descobrir o que tinha acontecido e tive uma visita. Meu netinho apareceu pra mim em sonho me contando que ele próprio havia colocado o jornal para mim. Depois de alguns dias vi um garotinho chamado Josh, ele me visitara quando eu já estava em casa. E pediu para eu estar na rua do acidente no dia de hoje e falar com uma menina chamada Emma que iria oferecer ajuda. Então fiz isso. E aqui estamos.

Parte 3 

Emma acabou desmaiando em seguida. Tinha tido informação demais em um só dia. O senhor então ficou ao lado dela tentando acordá-la

– Menina acorde! Preciso lhe contar uma coisa.

Lentamente ela começou a abrir seus olhos. Sentia seu corpo inteiro tremer e estava gélida. O velho então continuou a falar:

– Josh me contou que naquele dia a mãe pela primeira vez havia deixado ele brincar na rua com os amigos. E estava feliz que em dois dias ia viajar para poder te ver. Ele foi o único que viu o ônibus vindo quando ainda estava bem longe, mas disse que não conseguia se mexer e o máximo que conseguiu foi alertar para outras pessoas que saíssem da rua. Tentou fazer o mesmo para as outras crianças mas nenhuma acreditou nele. Me disse também que sentia como se alguma coisa o segurasse ali. E então o acidente aconteceu.

Emma então lembrou das velhas histórias que sua vó contava quando era criança.

– Minha vó me dizia que as vezes somos obrigados a passar por certas coisas para provarmos bondade. Eu preciso entrar em contato com meu irmão.

Dito isso Emma pegou uma lista telefônica e começou a procurar por médiuns locais.

– Minha jovem, esse tipo de coisa não se encontra em listas telefônicas. Me acompanhe eu conheço uma mulher que pode nos ajudar.

Parte 4 

Os dois então foram até a casa de Madame Boular. Conhecida na região por ter o dom de se comunicar com os mortos. Era uma mulher de mais ou menos 40 anos, acima do peso e vestia longos vestidos azuis.

– Já vi mulheres iguais a ela, mas usavam branco – sussurrou Emma.

Madame Boular afirmava ter tido diversas experiências sobrenaturais. Em uma delas seu prédio havia pegado fogo após ter irritado um espírito. Desde então ela vem cobrando alto para realizar suas sessões.

– Em que posso ajudá-los?

Emma se sentia altamente desconfortável naquele lugar. Havia caveiras penduradas pelo teto e as paredes eram pintadas em um tom de vermelho que parecia muito com sangue. Não havia nenhum sinal de possível tecnologia naquele lugar. As portas eram de madeira velha e fediam a urina de rato. O chão era de terra preta e pegajosa. E apenas uma grande mesa no meio da sala.

– Eu preciso entrar em contato com uma pessoa.

Madame Boular disse então suas condições e pediu para eles voltassem novamente vestindo azul.

– Por que temos que vestir azul?

– Acredite garota, você não vai querer que te confundam com uma virgem e levem sua alma ao inferno. Azul mostra para os espíritos e demônios que aquele corpo é protegido por algo maior. E também é a cor de os acalmam. Na última vez que entrei em contato com aquele mundo estava usando um vermelho vivo, e tudo de ruim aconteceu. Os espíritos se sentiam ameaçados. E então um deles, bem generoso aliás, me disse que quando tentasse outra comunicação que usasse uma cor mais amigável e me sugeriu o azul.

– E deu certo?

– Saberei ao mesmo tempo que vocês.

Parte 5

Emma voltou vestindo azul e pediu para Madame Boular não demorar pois ela tinha pressa para entrar em contato com seu irmão.

– Pequena criança, o mundo dos mortos não vai para lugar algum. Não precisamos ter pressa quando queremos nos comunicar com eles. Onde está aquele senhor que veio com você na outra vez?

– Não está aqui? Recebi uma ligação dele avisando para eu me apressar pois ele já estaria aqui apenas esperando eu chegar.

 Madame Boular percebendo que alguma coisa estava totalmente errada ali pegou seu telefone e ligou para uma mulher chamada Branca Jones.

– Está acontecendo de novo Branca.

Emma sem entender o que estava acontecendo resolveu ligar para Claude, seu recente amigo.

– Onde está você? Cheguei aqui na Madame Boular, o que está acontecendo?

Boular interrompeu Emma.

– Desligue a ligação. Sinto muito dizer isso mas seu velho não está mais nesse mundo.

– Como assim?

– No passado passei por uma situação parecida. Uma jovem veio aqui com seu avô e me pediu para entrar em contato com o irmão dela que tinha sofrido um grave acidente e ela precisava saber se ele estava em paz. E quando finalmente vieram para conversarmos com o irmão dela o velho tinha tido um derrame. Levei muito tempo para descobrir que o avô dela já tinha morrido a muito tempo e estava sendo possuído por um anjo. O que o mantinha vivo. O anjo tinha possuído o vô dela para fazê-la ir atrás de respostas sobre alguma coisa que tinha acontecido no passado dela. Agora está acontecendo novamente.

– Está dizendo que aquele velho estava possuído?

– É provável. Ou você acha que é coincidência ele estar lá no dia que seu carro estraga? Apenas anjos tem poder para saber quando algo vai acontecer. E assim tentar impedir ou deixar acontecer. Você disse que ele tinha um neto certo?

– Sim, ele me disse que ficava sentado na rua todos os anos na época do acidente pra ver se apareceria o fantasma de seu neto. Mas que nunca tinha conseguido ver algo até eu aparecer.

– Ele mentiu para você jovem. O neto dele não estava na rua quando houve o acidente. Ele é um dos que estavam dentro do ônibus e teve apenas leves ferimentos. Quando seu irmão Josh apareceu para ele foi para pedir que não falasse com você, entenda jovem, o anjo que possuiu Claude se chama Lucifer. É um anjo cruel, que não mede esforços para manipular e dominar alguém. Quando Claude te mandou vir aqui era o anjo que estava fazendo isso. Mas ele achou que podia me enganar também. Tenha cuidado jovem! Ele poderá aparecer novamente na forma de outra pessoa.

– Eu preciso falar com meu irmão – disse Emma chorando

– Vamos tentar então. Pegue aquele lenço azul que está atrás de você e coloque-o estendido nessa mesa na sua frente. Depois tome um copo de água, você precisa de oxigênio no seu corpo e mantê-lo hidratado. E então sente e segure minhas mãos bem firme.

Emma seguiu todas as instruções de Madame Boular.

– Pronto jovem. Feche seus olhos e pense apenas nos momentos bons que passou com seu irmão. Esqueça as brigas e tristezas. Pense apenas nas coisas boas e tudo dará certo.

Emma tentou pensar no momentos felizes que tinha tido com seu irmão. Porém a imagem do acidente não saía de sua cabeça. Madame Boular começou a tremer, assustada Emma soltou as mãos dela e levantou da mesa.

A Madame então ficou imóvel. Olhava fixamente para Emma. então começou a sorrir lentamente.

– Olá Emma! Vamos brincar?

– Madame Boular? A senhora está bem?

– Ela está bem sim, bem morta. Estou sentindo sua carne podre. Nossa como fede.

Madame Boular começou a ficar com aparência de morta. Uma luz então saiu de dentro dela. Emma teve que fechar os olhos. Quando abriu novamente Madame Boular estava endurecida no chão e um homem estava de costas olhando para fora através da janela.

– O que você fez?

– Eu acabei com o sofrimento dela – disse o homem. Ele vestia um terno azul e calças sociais pretas. Seu sapato brilhava. O cabelo preto estava bem penteado e parecia ter gel. O homem tinha um rosto muito bonito.

– Quem é você?

– Eu sou aquele que chamam de Diabo. Prazer!

– Não sabia que o Diabo usava roupas de gente normal. Cadê seus chifres?

– Eu sou o Diabo não um touro. Quem te disse que uso chifres? Não me responda. Então Emma, já descobriu a verdade?

– Que verdade?

– Do dia do acidente. Eu sei que sua memória está ruim faz um certo tempo.

Após o diabo dizer isso Emma começou a tentar lembrar de coisas sobre sua vida. Mas não conseguia, era como se tudo tivesse sido apagado.

– Deixa eu ajudar você Emma. Você estava doente. E por isso teve que se separar do seu irmão. Você ia fazer um tratamento. Quando tinha melhoras o hospital te liberava para o aniversário do Josh. No dia do acidente você tinha ficado pior. Ligaram para sua madrasta e pediram para ela levar Josh para se despedir de você porque não iria passar daquela noite. Josh ouviu a conversa as escondidas e resolveu pedir ajuda pra mim. Ele queria que você sobrevivesse e em troca ofereceu a vida dele.

Emma não conseguia pensar. Começou a chorar desesperadamente. Não acreditara no que acabara de ouvir.

– Você é o diabo!! Você mente! Como eu vou saber que isso é verdade e não apenas um truque seu?

– Emma, eu não minto o tempo inteiro. E minha missão é apenas torturar os humanos. As vezes uma verdade é tão torturante quanto. Esqueça tudo o que conhece de sua vida. Foi tudo uma mentira montada por mim. Como parte do acordo que fiz com Josh tinha que mantê-la longe da verdade. Então criei ilusões visuais e fiz um verdadeiro cenário de filme para fazê-la acreditar que o que você vivia era real.

– Não, isso não é verdade!

– Me conte Emma. Além dos aniversários de Josh o que mais lembra de ter feito nos últimos anos?

– Eu…Eu não lembro de nada. Mas lembro que vim para comprar o presente do Josh e ir para o aniversário dele.

– Aceite Emma. Você estava morrendo. Seu câncer tinha avançado. Te fiz acreditar que tinha vindo aqui para o aniversário de Josh, que o carro quebrou. Josh tirou o motor de seu carro. E isso fez com que você se sentisse assustada por estar ali sozinha. Claude me emprestou seu corpo. Quando vi que você estava indo em direção a ele percebi que meu plano tinha dado certo. Entenda, estava planejado. Você tinha que estar aqui. Assim como Josh tinha que estar no acidente. Lembro que fiquei segurando-o no mesmo lugar até o ônibus bater.

– Você é cruel!

– Depois de 2 anos do contrato eu tinha obrigação de te contar a verdade. Josh tentou me impedir. Veio até mim e implorou para que eu deixasse você acreditar que tudo tinha sido um acidente. Mas até mesmo para o diabo isso é muita crueldade. As outras crianças do acidente já estavam mortas também. E a manchete do jornal também foi minha culpa. A única coisa real foi o ônibus e as crianças dentro dele.

– O neto de Claude…

– Oh, sim, eu precisava te convencer que Claude precisava de sua ajuda. Inventei a história toda. O neto dele estava dentro do ônibus, e após o acidente todos sobreviveram. Agora nesse exato minuto o neto de Claude está no funeral dele. Para ele a história é diferente. Para ele o que aconteceu foi um acidente com o ônibus que tinha batido num poste. Ser o diabo as vezes é um pouco complicado Emma.

– Me deixa em paz!

– O que você viu foi o que eu quis mostrar para você. O que o neto de Claude viu, é o que realmente aconteceu. A morte do seu irmão como acidente foi apenas para convencer você. O que aconteceu de verdade aí já é outra história.

– Como ele realmente morreu?

– Na noite que você deveria ter morrido e que ele veio me pedir ajuda fiz ele prometer segredo eterno. Ele escolheu morrer dormindo. Toque em minha mão e verá a verdade.

Emma tocou na mão do diabo e como um filme pode ver tudo o que realmente tinha acontecido. Aquilo tinha sido demais para ela. Seu coração começou a acelerar.

– O que está acontecendo comigo?

– Oh, esqueci uma parte…

– O que está acontecendo comigo?

– Quando seu irmão morreu, o contrato dele começou a expirar. Hoje é o dia de sua morte Emma.

– Está dizendo que meu irmão morreu a toa?

– Estou dizendo que sou o Diabo. Não me importo com vocês. Apenas convenço-os de que posso ajudar para conseguir suas almas para mim. A alma de Josh era muito pura. Ele levou dias decidindo se realmente me chamaria para pedir ajuda. Todo contrato tem prazo de validade. E quando acaba tudo volta como era antes.

– Meu câncer voltou?

– Sim.

– Tenha piedade de mim! Acabe com meu sofrimento agora!

– Está pedindo isso pro cara errado. Você não fez nenhum contrato comigo, e enquanto viveu tentou ajudar a todos. Não posso interferir nisso. Sua alma pertence a aquele que outrora me expulsou do paraíso. Você vai para um lugar diferente Emma. Não há nada que eu possa fazer.

– E se eu fizesse um contrato com você?

– Eu me recuso.

– Mas você é o diabo!

– E você é fiel. Eu não faço contratos com desesperados. Porque depois me irritam pedindo para revogar. Mas se te serve de conforto posso ficar conversando.

Emma já não aguentava a dor. Pedia morfina para o diabo.

– Feche os olhos Emma. Vou te contar algumas histórias.

O diabo então começou a contar histórias de quando era um anjo e de seu momentos no paraíso. Emma foi para o sono eterno com sensação de tranquilidade. O diabo a cobriu com um lenço branco e desapareceu.