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A Casa Verde – Conto

Pessoas começam a desaparecer pela cidade e a única coisa que testemunham é uma luz bem forte. Enquanto isso um jovem garoto fica incomodado com uma casa completamente verde.

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Eu morava em uma rua extremamente movimentada, repleta de pessoas arrogantes e com muito cheiro de dinheiro em todos os bueiros. Ninguém falava comigo, ninguém sequer me olhava diretamente nos olhos. Meus pais diziam que talvez era por causa da minha cor de pele, mas eu agora sei que tinha algo muito maior por trás.
Tinha o costume de pegar minha bicicleta e descer a ladeira da rua todos os dias de manhã. Ia passando por aquelas casas insossas e esnobes enquanto ouvia Beatles no meu mp3. Então chegava na escola, prendia a bicicleta perto do portão e me encaminhava para aquela sala de aula fria e sem graça. Ao contrário do que acontecia na minha rua na escola todos me notavam. Não de um jeito bom, mas era melhor do nada. Para falar a verdade hoje eu preferia ter continuado completamente invisível.
Conheci Brendon na escola. Tinha alguns garotos mais velhos batendo nele e resolvi tentar defendê-lo. Terminamos jogados no chão com ketchup no uniforme e completamente com fome. Vimos algumas meninas no canto rindo da gente e decidimos fazer um pacto. Todos os dias iríamos proteger um ao outro não importa o que acontecesse.
Depois de ter feito essa grande amizade meus dias na escola ficaram melhores. Todos continuavam me chamando de apelidos desconfortáveis mas agora eu tinha alguém para me ajudar quando estava em desvantagem. Ele era um menino franzino. Loiro e cheio de sardas. Era cego de um olho então muitas vezes esbarrava nas pessoas que ficavam do lado direito dos corredores. Morava com os pais no outro lado da cidade, então só nos víamos na escola mesmo. Ele tinha uma irmã mais velha, mas eu realmente não lembro dela, talvez até tivesse trocado algumas palavras ou tapas.
A família dele era perfeita. Pais, irmã, cachorros e uma casa enorme, toda verde. Tinha sido pintada recentemente. Segundo boatos na cidade a casa tinha um passado bem bizarro. Um pai de família surtou e matou esposa e filha. Nunca falaram o motivo disso ter acontecido, mas o cinema dos Estados Unidos me ensinou que provavelmente alguma possessão demoníaca seria a verdadeira responsável. Essas pessoas possuídas fazem coisas inacreditáveis e depois não lembram de nada. Meu pai dizia que era uma doença psicológica mas eu realmente preferia acreditar nos jornais e naquele barbudo mal humorado que ficava na esquina da minha casa.
Nunca ouvi relatos bizarros na família do Brendon, e pelo que eu saiba o pai dele não matou ninguém, apenas pegou as malas e foi embora de casa sem dizer nada para ninguém. O que meu pai falou ser absolutamente normal para um homem da idade deles. De fato aconteceu algo naquela casa depois que ficamos amigos. Uma coisa que até hoje me assusta completamente.
Antes disso tudo teve Jim. Um homem que não falava nosso idioma e se vestia com roupas extravagantes. Dirigia um furgão e eu evitava qualquer contato com ele. Sempre achei que fosse um assassino de crianças. Até o dia que ele sumiu. Os móveis na casa ficaram exatamente do jeito que ele deixou, e pela notícia dos jornais ele não levou nenhuma roupa. Simplesmente sumiu.
Depois dele teve o caso dos Jenkins. Uma família mexicana que morava perto da casa do Brendon. O filho deles sumiu também. E a única coisa relatada foi uma luz bem forte que vinha da rua. Aparentemente ele foi em direção da tal luz e acho que já falei o resto.
Jim desapareceu em março de 2015 e o menino Jenkins em maio. Depois disso a cidade toda ficava em alerta. Qualquer luz mais forte vinda de qualquer lugar era considerada uma ameaça. Então tive que ficar trancado dentro de casa por quase três meses. Sem ir para a escola, sem falar com Brendon e sem assistir televisão. Quando questionei meu pai ele disse que era melhor assim, evitaria um pânico que ele considerava desnecessário.
Enquanto estive no meu cativeiro residencial não houve mais nenhum desaparecimento, só uma mulher que foi assassinada pelo namorado ciumento. Mas a população já nem se importava mais. Um assassinato é apenas mais uma folha caída no meio de todas as outras no pátio. Diferente de desaparecimentos aleatórios que são brilhantes no meio dessas folhas todas. Mas eu conhecia a mulher assassinada. Seu nome era Jiulia. Tinha sido minha professora no ano retrasado e sofria constantes abusos do namorado. Ninguém se intrometia e pelo que ouvi do meu pai quando um casal briga um casal se resolve. Teve apenas um dia que resolvi perguntar se ela estava bem. Tinha vários hematomas no rosto. Ela apenas sorriu e me disse que andara sonolenta e tinha batido o rosto no armário da escola. Mas eu sempre soube que era mentira.
Ninguém se importava com mulheres que nem Jiulia. A polícia mesmo levou uma semana para descobrir que ela estava morta. Afinal toda a atenção estava voltada para os misteriosos desaparecimentos do bairro Concórdia. Amanhã terá outra Jiulia jogada em alguma calçada mas se a luz forte tornar a aparecer terá bem mais brilho que qualquer outro crime cometido.
Levou alguns meses até a última pessoa desaparecer. E foi que nem os outros. Simplesmente sumiu. Não levou nada nem avisou ninguém. Era um homem de 50 anos, robusto e charmoso. Com uma fala bem mansa e diversas ex namoradas. Nenhuma luz forte foi vista por ninguém. Apenas um barulho, algo parecido com um ronco forte de um motor. As pessoas todas saíram para a rua na tentativa de ter algo interessante e aparecer no noticiário. Ninguém se importava com o homem. Esse foi o dia que eu não fui o único invisível ali. Esse foi o dia que meu pai ficou invisível para uma rua inteira que apenas procurava alguns flashes. Foi o dia que meu pai desapareceu sem um bilhete sequer ou dinheiro para comida.

Brendon estava uns dias sem querer falar comigo. Ficou incomodado por eu não ter visto nada acontecer e ele era realmente desesperado por algo fora do normal. Narrei que apenas ouvi um barulho de motor e então ele começou com toda uma teoria de que talvez fossem seres de outros planetas e que o barulho seria da nave deles. Ele não parara de falar um segundo e eu estava me sentindo muito estranho na casa dele. Não aguentava olhar para aquelas paredes todas verdes por dentro e por fora. Só queria encontrar meu pai. Depois de algumas horas voltei para minha casa. Completamente vazia e cheirando a comida velha. Não era tão divertido sem o meu pai.
Durante uns dois dias acabei dormindo muito mal. Tinha pesadelos frequentes com homens pelados enormes com cabeças pontudas e totalmente verdes. Dirigiam um furgão preto que fazia muito barulho e tinha luzes muito fortes. Eles vinham para me dizer que meu pai seria a comida deles e então eu acordava. Dessa vez tinha me urinado e acabei tendo que dormir na cama molhada e fedida nos dias seguintes.
Peguei minha bicicleta decidido a procurar pelo meu pai. Alguma coisa me dizia para olhar para carros barulhentos. Com certeza um cara maluco tinha sequestrado meu pai. Ele não era do tipo correto e já tinha sido preso várias vezes por porte ilegal de drogas. Fumava que nem uma chaminé então talvez tenha sido levado para cumprir alguma punição. Sempre me dizia que eu não podia fazer coisas erradas que os homens divinos me levariam para um tal inferno. Mas eu não queria meu pai no inferno.
Mesmo contra minha vontade pedi ajuda para Brendon. Ele tinha alguns aparelhos legais de investigadores e uma bicicleta com farol e buzina. Sai com a bicicleta dele ao redor do bairro e fui perguntando para todos que via se eles tinham notado alguma coisa diferente antes de cada desaparecimento. Muitos falaram de homens vestidos de preto que andavam de moto roubando crianças e velhos, outros falaram de um grupo de freiras do mal que serviam o diabo e levavam pessoas para servirem de alimento. Apenas uma mulher disse algo que parecia real. Foi a única que disse ter escutado um barulho alto de motor e de repente tudo ficou claro e seu vizinho sumiu. Ela acreditava que era uma caminhonete grande. Mas não conseguiu ver quem era o motorista ou a placa do carro.
Estava cada vez mais difícil não ser notado ali. Todo dia me perguntavam sobre minhas investigações amadoras e eu só respondia que se meu pai não estava comigo era porque estava fracassando. Então me olhavam torto e saíam de perto. Meu pai sempre me disse que falar realmente o que se passava na minha cabeça podia assustar algumas pessoas despreparadas.
Continuei fiel ao que eu chamava de investigação e depois de alguns dias consegui um vídeo de celular que aparentemente mostrava o que tinha acontecido com o menino Jenkins. O carro existia e era uma caminhonete verde. Ela chegou na frente da casa dos Jenkins e então no próximo minuto aparece o menino seguindo aquela luz forte e o barulho. Ele entra na caminhonete, tudo fica ainda mais iluminado e eles somem. Olhei os vídeos seguintes e não havia sinal algum da caminhonete andando. Era como se ela também tivesse desaparecido.
Desde o desaparecimento do meu pai não houve mais nada de estranho. Nenhum barulho ou luz diferente. Nem mesmo os assassinatos de sempre. A população estava bastante assustada. As ruas estavam completamente vazias. Algumas das casas agora tinham câmeras de segurança. Menos a casa de Brendon. Segundo ele segurança afastaria qualquer possibilidade de ataque e ele queria descobrir o que estava acontecendo. Acabei ficando hospedado na casa dele por uns tempos. Não me sentia confortável andando na minha rua repleta de câmeras e seguranças armados.
A casa de Brendon era enorme. Cheia de quartos e banheiros. Eles tinham um porão, que aparentemente ficava trancado. Acho que nunca fora aberto. O quarto que eu ficava era o único com as paredes brancas e uma iluminação mais relaxante. Um leve tom de amarelo que acabava me deixando com sono mais rapidamente. Meus dias ali estavam sendo muito tranquilos. Eles tinham um cachorro chamado Buffy. Em homenagem a série. Era um pastor alemão bem grande e bastante assustador. Rosnava para mim o tempo inteiro e quase me mordeu uma noite. Era bom estar protegido pela primeira vez desde o desaparecimento do meu pai. Dormi sem ter nenhum pesadelo e estava indo muito bem na escola.
Só era ruim quando chegava no domingo. Eles eram religiosos e acordavam muito cedo para ir para o culto. Menos Brendon, ele ficava jogando videogame para não me deixar sozinho em casa. Em um desses domingos ele me falou que a família dele era meio diferente das outras. Falou de um grupo de mulheres que matavam homens pois queriam um mundo mais feminino. Uma delas era uma tia dele que acabou sendo morta quando tentou matar um açougueiro. E então a conversa foi ficando cada vez mais estranha. E estava me assustando pra valer. Pedi licença para ele, inventei uma desculpa qualquer e fui para o pátio com o Buffy.
Depois de duas horas ouvi um barulho enorme de motor. Alguém ia desaparecer. Fui correndo para a calçada e então vi uma caminhonete verde dobrando a rua. Vinha na minha direção. Não consegui me mover apenas fiquei olhando aquele carro se aproximando. O farol estava com um brilho muito forte. Não conseguia ver quem era o motorista. Devo ter ficado ali por uns bons minutos e então o carro parou na minha frente. Ainda com o farol ligado vi o motorista sair. Ele ficou parado do lado do carro me olhando.

– John?

Não entendi como aquele homem poderia saber meu nome. Desde que nos mudamos eu usava outro nome. Brendon me conhecia por Jack. Com certeza esse homem me conhecia de antes da mudança. Mas não consegui falar nada, só fiquei observando.
– John?

O homem veio lentamente na minha direção. Me sentia preso dentro do meu próprio corpo. Só sentia meus olhos se movendo. Ele se aproximou e colocou o braço em cima do meu ombro.

– John? Por que você fugiu John?

Tentei chamar Brendon mas a voz não saía. Aquele homem estava me assustando e eu não conseguia me mexer. Fiquei tentando enganar meu cérebro e depois de muito tempo consegui mexer meu dedo da mão.
– John, escuta, está tudo bem agora. Venha comigo.

Meus dedos estavam começando a se mexer. Cada vez mais rapidamente. Eu estava de novo no controle do meu corpo. Quando o homem veio novamente na minha direção eu consegui me mexer. Bati nele e fui para perto do carro.
Do carro pude ver que a rua estava cheia de pessoas. Todo mundo ia saindo das suas casas e começavam a ficar aterrorizadas com o que viam. Eu tinha conseguido me salvar. Então Brendon veio correndo na minha direção.

– John o que diabos você fez? Larga isso!

Aquele com certeza não era o Brendon verdadeiro. Aquilo não era o meu amigo. Estiquei meu braço ameaçando dar um soco caso ele se aproximasse.

– John, sou eu cara. Larga isso.
Tornei a ameaçar. Ele ficou parado, centímetros de mim. Ouvi um barulho de sirene vindo da esquina e fui ver o que tinha acontecido. E então tudo ficou escuro.
– John? Querido? Está tudo bem agora. Você está a salvo. Não vai acontecer mais nada de ruim.

Era a minha mãe. Tinha cordas ao redor dos meus braços e dos meus pés. Estava em um quarto todo verde. Uma luz forte que vinha do teto me cegava. Perguntei o que tinha acontecido. Perguntei como ela estava ali. Onde estava meu pai.

– John, seu pai está bem. Está em casa, fazendo almoço para você. O médico renovou as receitas. Agora vai ficar tudo bem.
Brendon vinha entrando no quarto com uma camiseta dos Rolling Stones e um livro. Abraçou minha mãe, pegou uma cadeira e sentou do meu lado.
– Cara, o que aconteceu? Cara, tu me assustou legal.

Uma enfermeira entrou no quarto com um copinho cheio de comprimidos. Me deu uma água e disse para tomar os remédios que tudo ia voltar ao normal. Obedeci e acabei adormecendo.
Quando acordei estava na minha casa. Meu pai e minha mãe estava assistindo televisão no sofá do lado da minha cama. Brendon estava lendo um livro do Robert Bloch do meu lado e comendo um pacote de batata frita.

– Veja só quem acordou! Como está se sentindo filho?

Não pude negar a felicidade de rever meu pai. Parecia mais jovem e saudável. Tomei um copo de leite com feijão e arroz. Então Brendon veio me falar que tinha algo muito importante para me mostrar no celular dele. Meus pais o olharam torto e ele justificou dizendo que era melhor me mostrar agora que depois.
Ele então sentou do meu lado. E colocou um vídeo de três horas de duração. Comecei a assistir.

– Isso não faz sentido. O que é isso? Que vídeo é esse?
– Cara, isso foi o que aconteceu, sabe, antes de tu vir parar aqui. Olha direito. Tem todas as respostas aí.

Fiquei assistindo aquele vídeo. Onde o protagonista daquele filme estranho era eu mesmo. O vídeo mostrava eu andando de bicicleta em um pátio enorme. Falando com alguém que não aparecia no vídeo. E atacando um policial com uma pedra.

– O que é isso?

Meu pai então me explicou que minha receita médica estava vencida e eu estava tomando remédios errados. Esses remédios me faziam ver coisas e passar por situações que só existiam na minha cabeça. Eu falei do desaparecimento dele e ele me falou que isso nunca aconteceu. Disse também que comecei a tomar os remédios após minha avó falecer, que eles me ajudavam a ficar consciente mais vezes. Disse que Jack nunca existiu de verdade e que a mudança também não era real. Aparentemente eu fiquei internado em um hospital por quase um ano. Mas que agora estava tudo bem.
Novamente acreditei no meu pai. Ouvi tudo e entendi de verdade. Entendi a verdade.
Fiquei ali deitado naquela cama por mais alguns dias. E então me mandaram de volta para o hospital. Um prédio enorme, todo verde e repleto de lâmpadas com luzes bem fortes. Me colocaram em um quarto onde só tinha um livro e algumas fotos. O livro era um do Robert Bloch. Tinha uma dedicatória do Brendon.

” E aí cara?
Então.
Sou péssimo com dedicatórias sabe.
Mas olha, lê esse livro cara. É muito bom. É um livro sobre um rapaz, olha é bem legal. ”

Olhei para as fotos. Eram todas dos meus pais comigo. E uma do Brendon e eu quando pequenos em um parque com terra. Esbocei um sorriso de leve. Eu ia ficar naquele lugar por um bom tempo. Peguei o livro para ler. O livro favorito do meu melhor amigo. Com uma dedicatória. Então comecei a ler calmamente. Página por página. Iria ter tempo o suficiente ali.
” Capítulo um
Norman Bates ouviu o som e estremeceu.
Parecia que alguém estava batendo na vidraça…

Faca no Crânio

Enquanto o tempo muda lentamente
Meu corpo se desintegra
Enquanto minha mente se desfaz em cinzas
Minha alma morre novamente

Eu não entendo o que eles querem
Desapareço no beco da morte. Trêmula.
É tão vazio. Esculpido no calor do fel.
Eu não entendo por que me ferem.

A atitude tão podre das mentes pobres.
Uma violência tão sutil. Que ironia!
Órfãos que definham em busca dos pais
Pais que morrem no próximo trem

Eu não entendo por que eles ferem
Fincam a faca no coração da sociedade
Sorriem ao passo do primeiro cadáver
Comemoram tomando vinho quando querem

Enquanto o mundo agir erroneamente
Meu corpo se desintegra
Enquanto meu cadáver se desfaz em cinzas
Minha esperança morre novamente

Os Olhos

Até mesmo os homens mais cruéis conseguem chorar. Poucos são aqueles com os tais “olhos secos”. Onde já não há mais brilho. O olhar assustaria até o mais valente dos demônios.

Meus olhos secaram quando eu ainda não sabia soletrar. Foi de repente. O mundo girou muito mais lentamente e pude ver todas as cores se tornando cinzas. Meus pais chorar por eu não chorar. “Estou bem” repito muitas vezes, mas até os médicos duvidam.

“Ela tem olhos mortos”. Disseram que olhar fixamente para as minhas pupilas faria as pálpebras derreterem. O ruim sempre vai acontecer.

Já previram que meu olho iria quebrar e o primeiro a testemunhar isso teria anos de azar.

Quantas vezes é preciso desviar o olhar com medo do que não é compreendido? A vizinha, uma bruxa mesmo, vive amaldiçoando mas não consegue me ver sem óculos escuros.

“Não olhem crianças, é a morte que caminha entre vocês”. O reverendo Williams acredita de verdade que a pior coisa da vida usa calça jeans e camiseta caqui.

Então fecho os olhos. E dentro de mim sinto uma ardência muito forte. “O que está acontecendo?” Eu penso. Tudo está queimando. Tento enxergar novamente, os olhos não abrem. “Socorro!” “Socorro!” Grito mais alto. “Meus olhos morreram.”

Sinto um toque no ombro. Começo a ser guiada para algum lugar. “Onde estou?”. A mão me empurrou e senti meu chão mais gelado. “Está frio”. Meu corpo já não queimava mais. Então senti dedos tocando meus olhos. Puxando-os com força para cima.

O mundo voltou. As cores voltaram. Vi uma mulher parada. Me olhando. “Cuidado! Eles matam!”. Ela negou com a cabeça e disse sorrindo: nunca mais.

Sistema Global (Poemas Pelo Google Tradutor)

O que aconteceria se pegássemos poemas de autores consagrados e os traduzissem várias e várias vezes usando apenas o google tradutor?

Uma youtuber internacional fez uma coisa parecida porém usando músicas. E é incrível a mudança que se tem no sentido do texto (no caso da letra da música). O nome dela é Malinda Kathleen Reese (o canal dela ainda não tem legendas em pt-br, mas já existem versões de diversas músicas).

Eu decidi fazer essa brincadeira também, porém, com poemas e poesias de autores consagrados. E para começar eu escolhi o poema A Máquina do Mundo do Carlos Drummond de Andrade.

ORIGINAL

(Carlos Drummond de Andrade)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

VERSÃO DO GOOGLE TRADUTOR (EM VÁRIOS IDIOMAS DIFERENTES)

Sistema Global
(Carlos Drummond de Andrade)
E porque havia pouco para mim
até pedras
e o som chora à tarde

combinado com o som dos meus sapatos
É uma risada e uma seca; e os pássaros voam
em livros aéreos e negros

Cuidadoso quando escolhido
na escuridão profunda vem das montanhas
minha honra,

O carro foi aberto no mundo
Para aqueles que quebraram eles fugiram
e ele acha que ele não é estúpido.

Ele abriu com grande,
sem produzir um som prejudicial
mais ou mais pacientes

dos estudantes submetidos a uma inspeção
irritação e ansiedade velhas
com uma pequena consciência

Está em casa em todos os lugares
deste tipo
antes do mistério, no abismo.

Ele abre com clareza e urgência
quantos direitos intelectuais e intelectuais são
Os usuários estão perdidos

e você não voltará,
Se não somos algo, sempre dizemos
nenhuma mudança de texto escuro

ajudar todos no grupo,
Perguntas sobre benefícios não realizados
a aparência das coisas.

Quem ficou curioso a respeito do trabalho da Malinda Kathleen Reese só conferir o vídeo abaixo:

Culto Ao Rei – Poesia

O ar gelado lhe toca a face
Suaves dedos de um anjo morto
Doce assopro, o aroma verde
Um olhar fixo em cima do corpo

Mas olhe para o céu, veja-o brilhar
Uma estrela negra agora será
O homem que vendeu o mundo
Sem capa e ainda um heroi
Um rebelde no espaço sua vida constrói

Mortais choram sangue no dia próximo
Tempestades de espinho os cegam agora
Costas eretas e braços erguidos ao máximo
Em uma cena semelhante ao culto de Pandora

Veja-os agora libertos do sofrimento sem fim
Usando a dor como inspiração para belas historias
Uma ressurreição do rei eles pedem em coro
Gritam o nome de Lázaro com euforia
Não conseguem acreditar que o rei agora está morto.

Mil Espinhos na Face – Poesia

A criança valente. Contente segura a dor.
Mil espinhos na face. No corpo. Na mente.
Seu sangue correndo. Vermelho vivo. Ácida cor.
O carrasco em pé. A flor em suas mãos. Rosa.

Machuca o quanto pode o que não se vê
O que vê chora o que não pode até morrer
Isso! Não importa qual olho seja. A agulha está lá.
Vozes e gritos ecoam aqui. Veja a criança sangrando.

Ouça seus gritos de rancor. A desesperança
A pele queimada e cortada refresca sua alma
Os vícios, os modos repetidos lhe matam por dentro
Impuros eles são mas sem nada com a razão

Maduros estão ou não ou são talvez em vão
Também erram. Pois não. Perfeitos estão ou pensam que são
Esquerda, direita. Não chore, não grite
Abaixe a cabeça. Mil espinhos na face. Na mente.

Não olhe para trás. Não segure a mão. Aguente
Não tente. Apenas sente. Segue em frente.
A criança valente. Contente. Morreu com a dor
Cantou para os pássaros mas não sentiu o amor.

Vamos Brincar de Forca? – Conto

Um assassino que mata suas vítimas de um modo bastante incomum: com o jogo da forca

Há mais ou menos duzentos anos atrás, ou melhor, no dia primeiro do primeiro mês do ano de 1811, uma mulher é encontrada morta na banheira de sua casa. Sem braços, sem pernas e com a cabeça por um fio. Seu nome era Carolinne Piedievara, vivia na linha da pobreza. Sem marido, filhos ou parentes próximos. E para o cachorro deixou poucas moedas e comida.

DUZENTOS ANOS ATRÁS…

Naquela terça-feira Carolinne saíra mais cedo para caçar os ratos selvagens, seu único alimento. Morava numa cabana velha e fria, no meio de uma grande mata fechada. Era o único lugar da cidade que não existia no mapa.

Faltava apenas um rato quando senhorita Piedievara avistou um vulto entra as árvores. Talvez um homem. Ela então se aproximou e nada viu. Juntou os ratos mortos e voltou para a cabana. Acendeu a lareira e colocou seu alimento para cozinhar.

Um vento forte fez com que a lareira se apagasse e a cabana escurecesse. Carolinne, que adormecera por um breve período de tempo, acordou de súbito.    Estava amordaçada e amarrada numa cadeira. Um vulto preto á sua frente batia palmas animadamente. Foi se aproximando devagar. Os sapatos pretos batiam no chão cada vez mais fortes. Carolinne apagou.

Duas horas depois acordou numa cama, com as pernas e braços amarrados. Semelhante ao homem vitruviano.

Na frente da cama havia uma parede branca com tracejados retos. Sete na parte de cima e cinco na parte de baixo. O vulto então apareceu no vão da porta, permitindo que a luz invadisse o quarto onde Carolinne estava. Era impossível identificar o tal vulto.

A senhorita Piedievara ainda amordaçada e agora vendada escuta o vulto proferir as seguintes palavras: “Vamos brincar de Forca?”

A Parede – Conto

Clarabelle estava mais uma vez escrevendo seus contos de mistério. Afinal era sexta feira 13, de um ano 13. Tinha passado a noite inteira acordada imaginando uma história perfeita com um final igualmente perfeito.

Não tinha amigos, muito menos parentes, mas sim, uma imaginação fértil para tudo em sua vida. E como de costume, resolvera escrever mais uma ficção de terror sobre monstros e fantasmas.

Já escrevia a primeira linha quando ouviu um estrondo forte na parede. Continuou a escrever e novamente ouviu o forte estrondo. Levantou-se lentamente e sem fazer um ruído sequer foi andando em direção ao som. Mas dessa vez o estrondo foi mais forte. Parecia acompanhá-la onde quer que fosse. Foi se aproximando da parede quando tudo escureceu. Tinha acabado a luz. Sem vela ou lanterna seus passos foram ficando mais lentos. Sua respiração mais pesada. Estava nervosa. Com medo. Os ruídos na parede continuavam cada vez piores. Mais altos.

Ouviu-se gritos de dentro da parede. Gritos de sofrimento. Gritos de ódio. Clarabelle começou a tatear tudo em sua frente. Seus dedos sentiam marcas de rachaduras que vinham do meio da parede e seguiam até onde estavam seus pés. Cada passo que ela dava as rachaduras aumentavam. E aumentavam cada vez mais.

Clarabelle rapidamente desapareceu. Em seu lugar apenas gritos. Seus gritos.